quinta-feira, 2 de maio de 2013

O DILEMA DE AYUBANE


Era uma vez, um jovem de 14 anos chamado Ayubane. Vivia com a sua mãe e a irmã mais nova, numa das aldeias de Moçambique. Não conhecera o seu pai. Pois, este morrera quando Ayubane tinha apenas 1 ano de idade. Portanto, ouvira falar de sua mãe que o pai fora um bom e respeitado pescador entre os vizinhos. Por isso, mesmo depois da sua morte o seu nome continuava famoso entre os vizinhos e conhecidos. Ayubane ainda em tenra idade, alimentava o sonho de um dia se tornar um óptimo pescador como fora o seu pai. Dia e noite Ayubane fazia de tudo para que esse sonho se tornasse realidade. Por isso, ele ia à pesca na companhia dos mais notáveis pescadores da aldeia, com intuito de se preparar para o amanhã. O fruto deste seu trabalho, ajudava a mãe nas despesas da casa. E a outra parte, Ayubane colocava num velho cofre deixado pelo pai, para a compra de um pequeno barco para a sua actividade piscatória.

Enquanto isso, Ayubane conheceu uma bela jovem de uma aldeia próxima, chamada Tayura. Ela era filha única, de um velho pescador e antigo amigo do falecido pai de Ayubane. Tayura gozava de uma grande estima dos vizinhos, pois, fora educada pelos seus pais, nos moldes mais rigorosos da cultura. Daí que ela fora muitas das vezes, vítima de muitas cobiças por parte dos seus pretendentes. Por isso, Ayubane com medo de a perder, foi se apresentar aos pais da Tayura. Aceite o seu pedido, de receber Tayura como sua esposa, a responsabilidade de Ayubane aumentou. Pois, além de pensar na mãe, agora também olhava na sua futura esposa.

Enquanto a vida de Ayubane se dividia entre casa, mar e a vida amorosa com Tayura, como sua princesa, tudo corria a mil maravilhas. Porém, como diz um ditado popular: «na vida nem tudo corre como pensamos. Porque uma coisa é pensar e outra coisa é o curso normal das coisas da natureza». Portanto, no dia em que Ayubane convidara os outros pescadores para a inauguração, do seu novo barco, foi exactamente nesse dia, que a irmã morreu.

Dois meses depois da morte da irmã, levou a mãe e a sua namorada para as consolar, dando-as um passeio à praia. Chegados a praia, convidou-as a subirem no seu novo barco como uma surpresa. Depois de ter remado cem milhas, uma tempestade inesperada os fustigou e o barco afundou! Ayubane como um bom pescador deveria só salvar uma das pessoas, pois, a distância era enorme. E com certeza ele salvou uma delas. A pergunta que se coloca é a seguinte: a quem salvou Ayubane? A mãe ou a namorada? Porquê a mãe? E porquê a namorada? Esta é uma história contada no grupo de catequese com crianças dos seus 10-12 anos de idade.

domingo, 21 de abril de 2013

O SACRAMENTO DA PENITÊNCIA E AS INDULGÊNCIAS




INTRODUÇÃO
O presente trabalho fala do sacramento da Penitência e as Indulgências. O seu objectivo é de compreender como o sacramento da Penitência se relaciona com a doutrina das Indulgências praticada na Igreja há vários séculos. Para uma boa compreenção, começaremos por definir os conceitos de Penitência e da Indulgência, abordaremos em seguida a origem das indulgências, os tipos de Indulgências, a relação que há entre as indulgências e a Penitência.

1.    DEFINIÇÃO DOS TERMOS
1.1.Penitência
Penitência “do latim penitentia e do grego metania significa mudança de mentalidade, de espírito, reflexão, arrependimento, qual conversão do coração”[1] É um sacramento instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo para apagar os pecados cometidos depois do Baptismo. É, por conseguinte, o sacramento de nossa cura espiritual, chamado também sacramento da conversão, pois, realiza sacramentalmente nosso retorno aos braços do Pai depois de nos afastarmos com o pecado. Também a penitência consagra uma caminhada pessoal e eclesial de conversão, de arrependimento e de satisfação por parte do cristão pecador[2].

1.      2. Indulgência
     A indulgência é a remissão, diante de Deus, da pena temporal devida pelos pecados já perdoados quanto à culpa, (remissão) que o fiel bem-disposto obtém, em condições determinadas, pela intervenção da Igreja que, como dispensadora da redenção, distribui e aplica por sua autoridade o tesouro das satisfações (isto é, dos méritos) de Cristo e dos santos[3]. A Igreja Católica na sua doutrina sobre a indulgência ensina que se obtém de Deus mediante a Igreja, que, em virtude do poder de ligar e desligar que Cristo Jesus lhe concedeu, intervém em favor do cristão, abrindo-lhe o tesouro dos méritos de Cristo e dos santos para obter do Pai as misericórdias a remissão das penas temporais devidas a seus pecados. Assim, a Igreja não só vem em auxílio do cristão, mas também o incita às obras de piedade, de penitência e de caridade[4].
Segundo o Catecismo da Igreja Católica, para enteder esta doutrina e prática da Igreja, é preciso admitir que o pecado tem uma dupla consequência: a de nos privar da comunhão com Deus e, a de nos tornar incapazes da vida eterna. Estar privado na comunhão com Deus equivale a estar numa "pena eterna" do pecado. Por outro lado, todo pecado, mesmo venial, acarreta um apego prejudicial às criaturas que exige purificação, quer aqui na terra, quer depois da morte, no estado chamado "purgatório". Esta purificação liberta a chamada "pena temporal" do pecado. Essas duas penas não devem ser concebidas como uma espécie de vingança infligida por Deus do exterior, mas, antes, como uma conseqüência da própria natureza do pecado. Uma conversão que procede de uma ardente caridade pode chegar à total purificação do pecador, de tal modo que não haja mais nenhuma pena[5].

2.    ORIGEM E FINALIDADE DAS INDULGÊNCIAS
O uso das indulgências teve sua origem já nos primórdios da Igreja. Desde os primeiros tempos ela usou o seu poder de remir a pena temporal dos pecadores. Sabemos que na Igreja antiga dos primeiros séculos, a absolvição dos pecados só era dada aos penitentes que se acusassem dos próprios pecados e se submetessem a uma pesada penitência pública. Por outra, aquele que blasfemasse contra o nome de Deus, da Virgem Maria, ou dos santos, ficava na porta da igreja, sem poder entrar.
Na fase das perseguições dos primeiros séculos, quando o número de mártires era grande, muitos cristãos ficavam presos aguardando o dia da própria execução. Surgiu nesta época um costume de recorrer à intercessão dos que aguardavam presos a morte. Um deles escrevia uma carta ao bispo pedindo a comutação da pesada penitência do pecador; eram as chamadas “cartas de paz”. Com este documento entregue ao bispo, o penitente era absolvido da pesada penitência pública que o confessor lhe impusera, e também da dívida para com Deus; a pena temporal que a penitência satisfazia. Assim, transferia-se para o pecador arrependido, o valor satisfatório dos sofrimentos do mártir.
Com o passar do tempo, e principalmente por causa da “questão das indulgências” no tempo de Martinho Lutero, no século XVI, as indulgências foram ofuscadas e tornaram-se objecto de críticas. Pois, os pregadores das indulgências diziam que «uma alma sobe ao céu quando a moeda tilinta no fundo da caixa de esmola»[6]. Assim, Lutero “discordou publicamente da prática e venda de indulgências sobretudo pelo Leão X (1513-1521), que tinha o intuito de terminar a construção da Basílica de São Pedro”[7]. Rejeitou também a falsa segurança que as indulgências dão. Porque para ele, «o cristão não pode comprar a graça»[8]. No entanto, após o Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI reafirmou todo o seu valor, na Constituição Apostólica Indulgentiarum Doctrina, onde quis claramente mostrar o sentido profundo e teológico das indulgências; incitando os católicos ao espírito de contrição e penitência que deve movê-los ao realizar as obras indulgenciadas, removendo toda a aparência de mecanicismo espiritual que no passado aconteceu.
3.    TIPOS DE INDULGÊNCIAS
Há dois tipos de indulgências: a parcial e a plenária. A sua diferença reside no facto de como elas libertam o pecador do pecado, passado a designar-se de plenária se liberta o pecador de modo pleno. E parcial se o liberta de maneira temporária.

3.1 Indulgência plenária
A Indulgência plenária redime totalmente a pena que a pessoa teria que cumprir no purgatório. Ela é totalmente eficaz e definitiva para as pessoas mortas. Pois, consiste no cumprimento das obras para que o morto esteja liberto de todo o tempo do seu purgatório. A plenária pode ser lucrada àquele que adorar o Santíssimo Sacramento durante meia hora pelo menos, recitar o terço na Igreja, oratório, em família, comunidade religiosa ou em uma associação piedosa. Exercício da Via-sacra, perante as estações legitimamente erigidas.

            3.2. A Indulgência parcial
            A indulgência parcial redime só em partes. Pode ser alcançada àquele que recita o terço em particular, do Credo, do Magnificat, do Salmo 50, o ensino ou aprendizagem da doutrina cristã, a Comunhão espiritual, a leitura da Sagrada Escritura como alimento espiritual ao menos de meia hora.

4.    RELAÇÃO ENTRE A PENITÊNCIA E AS INDULGÊNCIAS
            Para compreender a relação existente entre o Sacramento da Penitência e as práticas das indulgências é preciso conhecer os efeitos do Sacramento da Penitência. Pois, as práticas das indulgências «estão estreitamente ligadas com eles»[9]. Portanto, os efeitos da penitência são: «a reconciliação com Deus, pela qual o penitente recupera a graça; a reconciliação com a Igreja; a remissão da pena eterna em que incorreu pelos pecados mortais; a remissão das penas temporais, consequências do pecado; o acréscimo das forças espirituais para o combate cristão»[10].
            Assim sendo, para um cristão ganhar indulgências para si ou para o outro, são necessárias as seguintes condições: a Confissão onde obtém o perdão dos pecados cometidos; a realização da obra prescrita (visita de uma igreja, oração e mortificações) com todo desapego do pecado e máximo amor a Deus; o estado de graças ao realizar tal obra; Comunhão eucarística e as intenções do Santo Padre, que são satisfeitas por intermédio da reza de um Pai-nosso ou então, uma Ave-Maria. Mediante os efeitos do Sacramento da Penitência e os requisitos para a obtenção das indulgências, se pode afirmar que há uma estreita união entre Penitência e as indulgências. Daí que não se pode falar de indulgências sem o Sacramento da Penitência. Pois, elas têm o seu efeito eficaz a partir da união com este sacramento. Assim, podemos dizer que a relação existente entre elas é de unidade, ou seja, as práticas das indulgências estão unidas ao Sacramento da Penitência.
            Notemos que ninguém pode ganhar indulgências sem que tenha anteriormente confessado as suas faltas e tenha recebido o perdão das mesmas, pois, as indulgências não têm em vista apagar os pecados, mas contribuir, mediante a participação de um grande acto de amor, para eliminar as consequências do pecado. Porém, «a verdadeira conversão se completa pela satisfação das culpas, pela mudança de vida e pela reparação do dano causado»[11].
            Nesta óptica, «o espírito interpretativo da indulgência de um modo geral, é de fazer aos fiéis que sofram com máximo amor a Deus e desapego do pecado»[12]. Daí que o trabalho, o serviço ao próximo e o sofrimento aceitos em união com Cristo sejam indulgenciados, mas ligados com o sacramento da Penitência.


BIBLIOGRAFIA
ALVADOR, Carlos C.S e EMBIL, José M. U., Dicionário de Direito Canónico, Edições Loyola, São Paulo, 1993.
BIGOTTE, J. Q., Indulgências, Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira de Cultura, Ed. Séc.XXI, Editor Verbo, Lisboa 2000.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, Gráfica de Coimbra 1993.
ESTEVES, J. F. C., CORDEIRO, J. M. G., Liturgia da igreja, Universidade Católica Editora, Lisboa 2008.
PORTO, Hugo S., Dicionário Enciclopédico das Religiões, Edições Vozes, Petrópolis 1995.
Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira, Lisboa 1945.
Paulo VI, Constituição Apostólica, Doutrina das Indulgências, Roma 1967.









[1] J. F. C. ESTEVES, J. M. G. CORDEIRO, Liturgia da igreja, Universidade Católica Editora, Lisboa 2008, p. 134.
[2]Cfr, Catecismo da Igreja católica, Gráfica de Coimbra 1993, 1423.
[3]Ibidem, 1471.
[4]Ibidem, 1478.
[5]Cfr, Catecismo da Igreja católica, Gráfica de Coimbra 1993, 1472.
[6]Cfr, J. COMBY, Para ler a Historia de Igreja 2, Editora Perpétua Socorro, Porto 1989, p. 72.
[7] Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira, Lisboa 1945, p. 648.
[8]Cfr, J. COMBY, Op., Cit, p. 72.
[9]Cfr, Catecismo da Igreja católica, Gráfica de Coimbra 1993, 1471.
[10] Cfr, Ibidem, 1496.
[11]Locus citatus.
[12]PORTO, S. Hugo, Dicionário Enciclopédico das Religiões, Edições Vozes, Petrópolis 1995, p. 1374.

segunda-feira, 11 de março de 2013

RESUMO DOS DOCUMENTOS QUE FALAM DA HOMILIA


Em breves linhas, neste trabalho se pretende resumir o que dizem os documentos da Igreja sobre a homilia. O seu objectivo é de apresentar de um modo resumido aquilo que é o pensar da Igreja sobre esta nobre tarefa do sacerdote. Para que o resumo seja exaustivo, iniciar-se-á por elencar os documentos e posteriormente o que diz cada um.

De entre os vários documentos da Igreja que falam da homilia, temos os seguintes:

A Constituição Dogmática sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium - 1963); Instrução Inter Oecumenici  (1964); Decreto Presbyterorum Ordinis Sobre O Ministério e a Vida dos Sacerdotes (07.12.1965);Diretório para Missas com crianças  (1973); A Introdução ao Elenco das Leituras da Missa - (Ordo Lectionum Missae – OLM –1981) ; Pastores Dabo Vobis (25.03.1992); Congregação para o clero - Directório para o Ministério e a Vida dos Presbíteros (31.01.1994); Instrução Acerca de Algumas Questões sobre a Colaboração dos Fiéis Leigos no Sagrado Ministério dos Sacerdotes (15.08.1997); Instrução Geral do Missal Romano – (IGMR – 2000); Sacramentum Caritatis (22.02.2007); Sacramentum Caritatis (22.02.2007); Verbum Domini (30.09.2010).

Para a Sacrosanctum Concilium, a homilia é parte da própria liturgia e ela não podem ser omitidas nas missas dominicais e nas festas de preceito, a não ser por motivo grave. Porque durante o Ano Litúrgico são apresentados os textos sagrados, os mistérios da fé e as normas da vida cristã (SC n.52).

Instrução Inter Oecumenici, tomando como base a Sacrosanctum Concilium, acrescenta novos elementos dizendo: a homilia pode ser a explicação de algum aspecto da leitura da Sagrada Escritura ou de algum outro texto do Ordinário ou do Próprio da Missa do dia, que tenha relação com o mistério que se celebra ou com as necessidades dos ouvintes (n.54). Para Presbyterorum Ordinis, diz nos que a pregação sacerdotal não deve limitar-se a expor de modo geral e abstracto a palavra de Deus mas sim aplicar às circunstâncias concretas da vida a verdade perene do Evangelho (PO n.6). E na pregação, os presbíteros são devedores de todos, para comunicarem a todos a verdade do Evangelho. Portanto, eles devem saber que, pregando abertamente, anunciam o Mistério de Cristo aos que crêem, quer quando ensinam o catecismo cristão ou explanam a doutrina da Igreja, quer quando procuram estudar à luz de Cristo as questões do seu tempo, sempre é próprio deles ensinar não a própria sabedoria mas a palavra de Deus e convidar instantemente a todos à conversão e à santidade (PO n.7 e 8).

Por sua vez, o Directório para Missas com crianças , diz-nos que a homilia poderá ser feita por um adulto que participa da missa com crianças, com a aprovação do pároco, sobretudo se ao sacerdote se torna difícil adaptar-se à mentalidade das crianças (n.24). E em  todas as missas com crianças deve-se dar grande importância à homilia, que pode ser feita em diálogo com eles (n.48).

O Ordo Lectionum Missae, retomando o mesmo espírito interpretativo do Directório para Missas com crianças, exorta aos pregadores dizendo: a homilia deve ser fruto da meditação, devidamente preparada, não muito longa e nem muito curta e que se levem em consideração todos os presentes, inclusive as crianças e o povo, de um modo geral as pessoas mais simples (n.24). E o pregador deve estar ciente que Cristo está presente e operante na pregação de sua Igreja (n.24). Portanto, evite-se dar os avisos durante a homilia, pois o seu lugar é seguida à oração depois da comunhão (n.27).

Para a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Pastores Dabo Vobis, o Sacerdote é ministro da Palavra de Deus. E como ministro deve ser o primeiro "crente" na Palavra, com plena consciência de que as palavras do seu ministério não são suas, mas d'Aquele que o enviou. Desta Palavra, ele não é dono: é servo. Desta Palavra, ele não é o único possuidor: é devedor relativamente ao Povo de Deus. Por isso, para ter em si mesmo e dar aos fiéis a garantia de transmitir o Evangelho na sua integridade, o presbítero é chamado a cultivar uma sensibilidade, um amor e uma disponibilidade particular relativamente à Tradição viva da Igreja e do seu Magistério: estes não são estranhos à Palavra, servem antes a sua recta interpretação e conservam-lhe o autêntico sentido (n.68).

 O Directório para o Ministério e a Vida dos Presbíteros, afirma que  o ministério da palavra não pode ser abstracto ou distante da vida das pessoas; ao contrário, ele deve referir-se directamente ao sentido da vida do Homem, de cada homem, e, portanto, deverá entrar nas questões mais vivas que se colocam à consciência humana. Daí que é necessário que o Evangelho seja apresentado como «a potência de Deus para salvar aqueles que crêem» (Rom 1,16). Por isso, os presbíteros, recordem-se que «a fé depende da pregação e a pregação, por sua vez, se actua pela Palavra de Cristo» (Rom 10,17). Com efeito, a sua missão «não é de ensinar uma sabedoria própria, mas sim de ensinar a palavra de Deus e de convidar insistentemente a todos à conversão e à santidade» (n.135). Para tal, a pregação não pode reduzir-se à comunicação de pensamentos próprios, à manifestação da experiência pessoal, a simples explicações de carácter psicológico, sociológico ou filantrópico. Trata-se de anunciar uma Palavra de que não é permitido dispor, dado que foi confiada à Igreja para defender, compreender e transmitir fielmente.

A Instrução Acerca de Algumas Questões Sobre a Colaboração dos Fiéis Leigos no Sagrado Ministério dos Sacerdotes, no seu 3º artigo, diz nos que, a  homilia é forma eminente de pregação e  é parte integrante da liturgia (n.68). E deve ser  reservada ao ministro sagrado, sacerdote ou diácono.(n.69). Assim sendo, estão excluídos  os fiéis não-ordenados.

Por sua vez, a Instrução Geral do Missal Romano, clarifica que a homilia é parte vivamente recomenda pela liturgia  (n.65). E ela normalmente é feita pelo próprio presidente da celebração (n.66). Nas leituras explanadas pela homilia Deus fala a seu povo (n.55; SC.33). E o lugar da homilia é na cadeira ou no ambão.

Por último, a Verbum Domini, diz nos qual é função da homilia; que é a de favorecer uma compreensão e eficácia mais ampla da Palavra de Deus na vida dos fiéis». E ela constitui uma actualização da mensagem da Sagrada Escritura, de tal modo que os fiéis sejam levados a descobrir a presença e a eficácia da Palavra de Deus no momento actual da sua vida. Ainda a Verbum Domini, sugere que durante a preparação da homilia, o pregador deve ter em conta as seguintes perguntas: «o que dizem as leituras proclamadas? O que dizem a mim? O que devo dizer à comunidade, tendo em conta a sua situação concreta?».

 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

QUEM É DEUS

INTRODUÇÃO
O presente trabalho reflecte sobre Quem é Deus. Ele se fundamenta na obra de Jean-Claude Barreau. O seu objectivo geral consiste em analisar e apresentar o Deus dos Evangelhos, e como Jesus Cristo nos revela. Quanto aos objectivos específicos, ele pretende clarificar as várias concepções erróneas que as pessoas têm sobre Deus. Comparar o Deus dos Evangelhos com as imagens dos deuses que os homens criam. Aprofundar a Teologia Trinitária, sobretudo o Deus Pai, a partir da revelação feita por Jesus Cristo que se encontra nos Evangelhos. Compreender o Dom eterno do Pai revelado pelo Filho por meio do Espírito Santo. Perceber a relação do amor Trinitário (Pai, Filho, e Espírito Santo). E demostrar que as imagens de ”deus” criadas pelos homens são ídolos e não Deus. Portanto, o tema em epígrafe, está dentro do curso da Teologia Dogmática e Trinitária. Pois, quando não se compreende bem que em Deus se acredita, não se é capaz de distinguir o verdadeiro Deus dos falsos deuses. Assim, percebendo bem Quem é Deus, é possível falar melhor dele sem cair na idolatria. Por outro lado, o tema é relevante porque vai ao encontro da questão do florescimento de seitas do nosso tempo. Para uma boa compreensão o nosso trabalho está divido em três capítulos. No 1º precisaremos Quem é Deus; no 2º apresentaremos as dimensões do homem e no 3º e último dedicaremos uma atenção singular sobre o Espírito Santo. Por fim apresentaremos uma conclusão geral e a bibliografia.

I. QUEM É DEUS
De um modo geral, quando se fala de Deus, sempre há duas posições antagónicas: a dos que se declaram e afirmam crer em Deus e a dos que recusam crer em Deus. Assim sendo, se pode concluir que na esfera humana há crentes e ateus. No entanto, a questão que surge é a seguinte: que Deus se crê, ou então, se recusa? Com base a esta questão fundamental, iniciaremos a fazer uma precisão do termo Deus.

1.1. Precisão do termo Deus
O crer ou não em Deus não constitui o grande problema sobre Quem é Deus. Pois, mesmo que o sujeito afirme ou negue; acredite ou recuse em Deus, Ele continua sempre Deus. Alias, a essência divina não aumenta nem diminui com as afirmações humanas. Deus é Deus com ou sem as afirmações humanas. «Deus é Deus enquanto Deus» (BARREAU, 1972: 9). O grande problema sobre o tema em epígrafe, reside na compreensão daquilo que o sujeito acredita ou nega, ou seja, em que Deus acredita ou nega. A incompreensão sobre quem é Deus é motivada pela ambiguidade do termo Deus. Para Barreau, «não há termo que seja mais ambíguo do que "Deus". A afirmação ou negação deste termo é imprescindível saber o que se entende por esta palavra» (Ibidem: 9).
Quando se está diante de alguém que confessa ou negue acreditar em Deus, «a primeira atitude face a esta pessoa é questionar em que Deus acredita ou nega. Pois, muitas das vezes, as pessoas de facto negam verdadeiramente de um "deus" que não é Deus» (Ibidem). Porque na maioria das vezes, as pessoas têm uma imagem de "deus" fruto das suas imaginações. Entretanto, o "deus" fruto da imaginação pessoal não corresponde com o verdadeiro Deus, Aquele que foi revelado por Jesus Cristo do qual os evangelhos falam. «O "deus" fruto da imaginação pessoal não é "deus" e nem é digno de ser acreditado, mas sim, de ser demolido porque é um ídolo» (Ibidem). O verdadeiro Deus é O dos evangelhos, do qual Jesus Cristo nos revelou. Este Deus dos evangelhos é que é digno de ser adorado. Portanto, o verdadeiro Deus é o Deus de Amor (1Jo 4, 8).

1.1.1. Deus e os ídolos
A idolatria é uma prática que desde a antiguidade e até aos dias de hoje acompanhou e acompanha os homens. Diante deste facto, o cristão como homem religioso deve saber distinguir os falsos deuses do verdadeiro. Deve saber também que «o estado, o partido, a pátria, o dinheiro, o sexo e até a própria igreja, são meios dos quais é necessário servir-se para ir ao encontro do Deus verdadeiro» (Ibidem: 13). Se estas realidades, no lugar de serem meios, são concebidas como fins a servi-los, então, a pessoa que assim o faz, é idólatra. Pois, ela está a divinizá-los. Nos parágrafos abaixo, estão mencionados alguns tipos de falsos deuses e ídolos segundo Barreau.

1.1.2. O "deus" da magia
Maior número das pessoas professa este "deus". «Nasce das angústias e ilusões dos homens» (Ibidem). É um "deus" sem fisionomia, portanto, «é uma coisa ameaçadora, um poder vago que inquieta as pessoas e com ele é necessário fazer certos contratos. Este "deus" é invocado nos momentos em que se fraqueja. Ele serve de último recurso» (Ibidem). Para buscar reconciliação com ele, é necessária a realização de ritos mágicos. A sua actuação é automática desde que a disposição dos que cumprem os ritos seja boa. Porém, este "deus" nasce do medo. E «o medo degrada o homem» (Ibidem). E em última instância, «o medo é o sinal clínico de uma atitude religiosa mágica» (Ibidem: 14). Face a isso, o cristão como homem religioso, não pode ser alguém que se curva diante de um ídolo por causa do medo. Aliás, Cristo não criticou os Apóstolos por não ter virtudes, mas por não ter fé (Mc 4, 40). Portanto, o que um cristão precisa para vencer os seus medos é a fé. Pois, a fé liberta o homem dos seus medos.

1.1.3. O Deus Omnipotente
Normalmente, quando se fala de Deus todo-poderoso as pessoas imaginam em um «Deus ditador que tudo pode fazer e que é responsável de todo o mal» (Ibidem: 18). Com base a este modo de pensar, aceita-se a ideia segundo a qual «se Deus é todo-poderoso, Ele é o culpado de todo o mal que existe no mundo, pois Ele poderia impedi-lo, mas não o faz» (Ibidem). Este mal-entendido, muitas das vezes dá origem ao Ateismo Moderno. «Deus é todo-poderoso, porém, Ele não é responsável pelo mal no mundo. Pois, o mal tem origem no coração do próprio homem» (Ibidem: 45). Há tanto mal no mundo porque os homens não deixam possibilidades para Deus actuar. «Deus não age sem nós porque nos ama e mendiga nossa resposta sem desanimar e, muitas das vezes esta resposta é negativa. Deus nos pede de O deixarmos agir e entrar» (Ibidem: 46).



1.1. 4 "deus" utilidade
O "deus" utilidade é um dos ídolos que um bom número das pessoas recorre quando têm necessidades. Porque, acreditam que ele é o "deus" dos exames, das batalhas, das satisfações pessoais. Os que recorrem a este "deus", acreditam que ele é um "deus" que está sempre do seu lado e contra os adversários. Ele é um "tapa-buracos", e se recorre a ele quando se tem necessidade e deve ser sempre favorável aos que lhe invocam.  

1.1.5. O Deus bondoso
A respeito do Deus bondoso há também um mal-entendido. Porque as pessoas se servem deste Deus bondoso para justificarem a ordem moral. Na opinião de Barreau, a Igreja tende a transmitir a moral do Deus bondoso, mais do que a fé no Deus do Evangelho. Para ele, os que desejam receber os sacramentos de iniciação, são ensinados antes da fé as virtudes morais, depois são paulatinamente introduzidos nas questões da fé. Segundo ele, «o comportamento do homem depende de suas convicções profundas de sua fé, depois estas convicções transformam-se no seu agir» (Ibidem 22). Então, Barreau se questiona se os cristãos são melhores que os outros? E ele constatou que na vivência quotidiana do homem em geral, há homens com comportamento digno, mas que não são cristãos. Daí que os «cristãos não são os únicos melhores moralmente» (Ibidem: 23). Em sua conclusão, o Deus bondoso, não resiste à descoberta de virtudes pagãs, e a lei moral não necessita dele como garantia.

1.2. As imagens de Deus na Bíblia
As imagens de Deus que se encontram na Bíblia, que também Jesus as usa, são tão distantes com as que os homens criam. Isso porque «Deus não é objecto de conhecimento» (Ibidem: 38). Ou seja, Deus não deve ser colocado no nível de conhecimento racional, mas na união e encontro com os homens. Pois, «Deus é uma pessoa que se revela por meio dos profetas e por Jesus Cristo» (Ibidem). Por isso, tudo o que alguém diz a respeito de Deus em termos positivos, «não define Sua natureza mas o que cerca a Sua natureza, porque Deus é mais do que tudo o que se pode dizer a Seu respeito» (Ibidem). Deus é sempre maior do que pensamos. Ou seja, «Deus não se deixa limitar» (BLANK, 1988: 33).


1.2.1 Deus amante
A figura do amante é uma das imagens que muitos profetas se serviram para falarem de Deus aos seus interlocutores. O profeta Oseias, por exemplo, mostra Deus como «o amado que promete felicidade à sua amada» (Os 2, 21-22). Na profecia de Isaías, se encontra «Deus como o esposo que perdoa a esposa infiel» (Is 54, 5-8). Como se pode notar, o amor patente nestas citações bíblicas, muitas das vezes, está cheio de mal-entendido. Pois, a amada de Deus (o povo de Israel), se prostitui, foge e até não quer reconhecer o seu amante. Contudo, Deus como amante do povo, nunca se cansa e continuamente está fiel ao seu povo. Isso porque «o Amor de Deus vence todas as dificuldades, e é mais forte que a morte. E não há nada que lhe pode submergir» (Ct 8,6-7).

1.2.2. O Deus de Aliança
A Aliança é um dos temas privilegiados no Antigo Testamento. «O Deus que Jesus chama de Pai, é esse que inaugurou a história de libertação» (FERREIRA, 1970: 23). E devido a sua importância, Jesus retoma apresentando-se como o noivo, o esposo no meio dos seus (Mc 2,19), como Aquele esposo que convida os convivas das núpcias de um modo imprevisto (Mc 14,17). Uma vez que Deus é o esposo, o amante de Israel, então, o problema sobre a omnipotência de Deus que muitas vezes é levantado, se situa num outro plano. «Deus é omnipotente, porém, a Sua omnipotência não se faz sentir diante da liberdade humana. Pois, Deus tudo pode, mas não obriga os homens a Lhe amarem» (BARREAU, 1972: 41).

1.3. O Deus dos Evangelhos
«Dizer que Deus é Pai é dizer que Deus é fonte da vida. Pois, Deus nos cria, nos faz, nos mantém vivos a cada minuto da nossa existência» (BINGEMER, 2003: 18). Portanto, Ele é nosso Pai. A designação de Deus por Pai, só se encontra no Novo Testamento. Jesus quando se dirigia a Deus, na sua língua materna usa a palavra Abba (Paizinho). Ele chamando Deus por Pai, fazia sobre Deus a mais extraordinária revelação. Deus não é somente Amor, é Pai, não só de Jesus, Filho único, mas também nosso Pai. «Deus é amor e justamente porque é amor, Deus é comunhão do Pai, Filho e Espírito Santo» (COMASTRI, 2000: 117). Entretanto, por meio de Jesus Cristo que se fez nosso irmão segundo a natureza humana, tornamo-nos filhos adoptivos de Deus. E com Jesus, temos o privilégio de dizermos Abba, como Ele dizia. A revelação da paternidade de Deus, por meio de Jesus Cristo, introduz-nos no maior segredo de Deus.
II. AS DIMENSÕES DO HOMEM
O homem durante o seu percurso sobre a terra é caracterizado por três dimensões: a dimensão vertical, horizontal e a interior.

            2.1. Dimensão vertical
            Esta dimensão coloca o homem em relação com tudo o que está acima dele: «Deus, a tradição, os valores morais, a pátria, o estado e o património» (BARREAU, 1972: 42). Estas categorias, vêm directamente de Deus. Portanto, na dimensão vertical, se reconhece Deus como Pai, do qual Jesus fala continuamente. E os traços deste Pai, se encontram na parábola do filho pródigo (Lc15, 11-32), que vendo seu filho chegar de longe, corre para lançar-se-lhe ao pescoço e abraçar. Entretanto, Deus é um Pai de ternura que respeita os seus filhos. Porque «Deus como amante, Ele nos quer livres e livremente Ele deseja ser amado. E quando chama a quem quer que seja, nada está montado previamente. O Seu chamado dá fundamentos à liberdade da amada. Pois, Deus nos chama e nos faz livres» (Ibidem).

2.2. Dimensão horizontal
            A dimensão horizontal coloca o homem em relação com tudo o que está à sua volta: os irmãos, amigos, e os seus semelhantes. Aqui o homem vive os valores universais da fraternidade e igualdade. O característico nesta dimensão, é a irmandade. A dimensão horizontal, atingiu o seu ponto máximo em Jesus, porque «Ele revelou-nos Deus como fraterno. Porque Ele como o Emanuel, veio habitar no meio de nós, para nos salvar e nos libertar do pecado» (Ibidem: 54). Entretanto, na dimensão horizontal, o homem contempla o rosto de Jesus Cristo, a partir dos rostos dos irmãos. Pois, foi Ele que disse: «tive fome e me deste de comer, tive sede e me destes de beber» (Mt 26, 35).

            2.3. Dimensão espiritual
            Na dimensão espiritual, o homem se coloca em relação com o que está dentro de si mesmo. É o mundo da alma, do espírito, do instinto e da intuição. O homem na sua intimidade encontra os valores próprios da interioridade. Estes por sua vez, não tem nada a ver com a subjectividade, porque a categoria da subjectividade difere com a da interioridade, pois, «a subjectividade fecha o homem no seu pequeno mundo individual, enquanto a interioridade coloca-o em comunicação com as fontes mais profundas do ser» (Ibidem: 51). O homem quando se coloca na sua interioridade, entra em relação com Deus que está dentro de si. Porque «Deus está em nós mesmos, como nosso Espírito» (Ibidem). E quando o homem vai até o fundo do seu coração, lá O encontra, como muito bem Santo Agostinho observou ao dizer: «Deus é mais íntimo a mim mesmo do que a minha própria intimidade» (A Busca de Deus: Nos Solilóquios de S. Agostinho). Com estas dimensões, se percebe que o homem precisa de se relacionar com o que está acima, em volta e com o que está dentro de si.

III. ESPÍRITO SANTO
O Espírito Santo é aquele que abre «o mundo de Deus ao mundo dos homens e a história humana e constitui a comunidade dos homens no amor do Pai e do Filho» (FORTE, 1987: 114). Dai que «ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor a não ser no Espírito Santo» (1Cor 12,3). Ou seja, «sem o Filho, não conhecemos nem o Pai nem o Espírito. Assim como, sem o Espírito Santo, não conhecemos o Pai e o Filho» (FERREIRA, 1970: 18). Portanto, «Deus age em união com o Filho e o Espírito Santo» (SCHULTE, 1972: 318). E o revelador do Pai e do Filho é o Espírito Santo. Entretanto, todas as vezes que o homem deseja conhecer quem é Deus, em nenhum momento se vê fora do Espírito Santo. Pois, Ele é «a luz sob o qual se contempla o mistério de Deus» (Ibidem: 18).

            3. 1. Acção do Espírito Santo
Em hebraico ruah significa sopro, ou então, vento. Este sopro pode ser entendido como sendo aquela «força que sustém e anima o corpo e a sua massa» (DUFOUR, 2002: 294). Este sustentáculo não é propriedade do homem, embora ele não possa viver sem ele, e morre quando este sopro respiratório falta. O sopro do homem vem de Deus (Gn 2, 7; 6, 3; Jo 33, 4). E a Ele volta com a morte do homem (Jó 34, 14; Sl 15, 11). Quando se fala do Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade, logo a primeira impressão dos que falam, pensam ou imaginam uma realidade vaga, sem forma corpórea. Portanto, o Espírito Santo é algo que não oferece uma clara concepção. Pelo contrário, Ele se faz visível a nós pelos seus efeitos. A sua presença é notória na nossa vida a partir dos seus frutos, aqueles que muito bem São Paulo fala aos Gálatas: «o amor, a alegria, a paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio» (Gl 5, 16-25).
A acção do Espírito Santo, também pode ser vista na história dos povos e na vida de cada um. Por exemplo, na Bíblia, logo no Antigo Testamento, se encontra a acção do Espírito Santo, que esteve presente na criação do mundo e do homem (Gn 1, 1-2; 2, 7). A mesma acção do Espírito Santo, esteve também presente e acompanhou a missão dos profetas, para que em nome de Deus defendessem os pobres e os oprimidos, e suscitar nas pessoas o conhecimento segundo o qual elas são filhos de Deus.
            No Novo Testamento, se encontra a acção do Espírito Santo, presente no nascimento de Jesus (Lc 1, 34-35), na Sua missão desde o Baptismo (Lc 4, 1-14), esteve também no Pentecostes como a força motriz para a comunidade dos Apóstolos reunida (Act 2, 1-4). Portanto, o Espírito Santo está presente nas boas acções que se realizam no nosso mundo. Por isso, é importante reconhecer a presença do Espírito Santo na nossa vida como o motor das boas acções e da evangelização. «O Espírito Santo trabalha connosco sem nós, não actua. O vento do Espírito Santo, irrompe nas portas dos nossos corações. Se elas estiverem fechadas, Ele fica rodopiando de lado de fora» (BARREAU, 1972: 72). Mas, se abrimos as portas dos nossos corações, pequena brecha que seja, a «ruah» de Deus, irrompe em nós, e por meio de nós, a sua força se expandirá no mundo inteiro, e seu fogo pega e torna-se devorador.

            3. 2. As consequências do esquecimento do Espírito Santo
            O agir de Deus, a vida de Deus é o Espírito Santo. «O Espírito Santo é uma presença contínua e anónima em nós» (Ibidem: 62). Este Espírito Santo, possui uma multiplicidade de rostos. Daí que, de certa forma, Ele assume na realidade o rosto de cada um dos nossos irmãos. «Uma vez que o Espírito Santo é o vento que nos impele a praticarmos o bem, e a evitarmos o mal, Ele não pode agir fora de nós. Pois, precisa da nossa colaboração» (Ibidem).
            Quando o homem se deixa guiar por meio do Espírito Santo, ele é capaz de exclamar como Jesus: Abba, (Pai). Pois, o Espírito Santo sopra vivamente nele (Mc 14, 36). Todavia, quando se esquece que a vida de Deus é Espírito Santo (ruah), o homem vive consequências drásticas na sua vida, ele vive de proibições e como resultado, se esquece de praticar a justiça (Lc 10, 29-37). Portanto, «a obediência cega da Lei e das rubricas de um culto passado, provoca desprezo ao próximo» (Ibidem: 63). Entretanto, quando se ignora a presença do Espírito Santo, há uma posição irredutível às tendências legalistas e se confunde o sagrado do profano, a Igreja com o mundo, o natural com o sobrenatural. Mas, para um cristão, animado pelo Espírito Santo, não pode distinguir «Igreja e o mundo, porque a Igreja é o mundo quando este mundo toma consciência, por Cristo de ser amado por Deus» (Ibidem: 65).

            3. 3. A crise do Espírito Santo
Em breves linhas neste tema se pretende falar o que acontece com o homem quando se esquece ou fecha as portas do seu coração ao Espírito Santo. Fazendo um reparo o nosso tempo, a medicina as outras ciências atingiram avanços e progresso consideráveis. Estes progressos fizeram com que muitas pessoas depositassem maior confiança nestes avanços tecnológicos. No entanto, apesar dos ganhos adquiridos por estas ciências, o homem se sente incapaz de se livrar do «desprezo, do racismo, do ódio e da guerra» (Ibidem: 88). Face a tudo isso, o homem se interroga sobre a sua existência, o seu ser e o sentido da vida. A razão do questionamento do homem é que apesar do grande progresso científico e tecnológico, «a própria ciência não abre nenhum caminho para que o homem se reconheça e se livre da violência, do desprezo e do mal» (Ibidem). Diante de tudo isso, o homem aos poucos começa a acreditar que a ciência não traz a almejada felicidade. Acredita também que o consumo dos bens materiais não lhe satisfaz a sede de possuir mais. Pois, enquanto possui isto, deseja aquilo. Daí a insaciável fome material. Por isso, o homem se interroga: «quem pode fazer de nós verdadeiros seres vivos?» (Ibidem).
A esta pergunta o homem encontra o fundamento «em Jesus Cristo, vencedor da morte, como Aquele que nos pode fazer viver e nos dá coragem sempre renovada para lutar contra todas as alienações fundamentais da nossa condição humana» (Ibidem: 89). Assim sendo, «o homem só compreende tudo isso por intermédio do Espírito Santo que lhe fala no seu coração e lhe permite reconhecer que Jesus de Nazaré é o nosso Senhor e Deus é nosso Pai» (Ibidem: 70).

CONCLUSÃO
Chegado ao fim desta abordagem sobre Quem é Deus, se pode concluir que o crer ou não em Deus, não constitui o grande problema sobre o tema em questão. Pois, mesmo que a pessoa acredite ou negue a Deus, Ele continua sempre Deus. A essência divina não aumenta nem diminui com as afirmações humanas. «Deus é Deus enquanto Deus» (Ibidem: 9). Por outro lado, as imagens de Deus que se econtram na Bíblia, que também Jesus as usa, são tão distantes com as que os homens criam. Isso porque «Deus não é objecto de conhecimento» (Ibidem: 38). Deus não deve ser colocado no nível de conhecimento lógico ou intelectual mas na união e encontro com os homens. Porque «Deus é uma pessoa que se revela por meio dos profetas e por Jesus Cristo» (Ibidem). Por isso, tudo o que alguém diz a respeito de Deus em termos positivos, «não define Sua natureza mas o que cerca a Sua natureza, porque Deus é mais do que tudo o que se pode dizer a Seu respeito» (Ibidem). Assim sendo, «ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor a não ser no Espírito Santo» (1Cor 12, 3). Ou seja, «sem o Filho, não conhecemos nem o Pai nem o Espírito Santo. Assim como, sem o Espírito Santo, não conhecemos o Pai e o Filho» (FERREIRA, 1970: 18). Portanto, o revelador do Pai e do Filho encarnado é o Espírito Santo.
A presença do Espírito Santo é notória na nossa vida a partir dos seus frutos, «o amor, a alegria, a paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio» (Gl 5, 16-25). Portanto, quando o homem se deixa guiar por meio do Espírito Santo, ele é capaz de exclamar como Jesus: Abba, (Pai). Pois, o Espírito Santo, sopra vivamente nele (Mc 14, 36). Todavia, quando se esquece que a vida de Deus é Espírito Santo (ruah), o homem vive consequências drásticas na sua vida. E uma delas actualmente é o abandono da fé critã de alguns baptizados, para as seitas, com o intuito de terem uma vida facil, sem sacrificios. Mas, depois de tanto correrem atrás do vento que não salva, ganham a consciência que só Deus, por meio de Seu Filho Jesus Cristo, no Espírito Santo, é que o homem pode viver dignamente a sua vida.

BIBLIOGRAFIA
BARREAU, Jean-Claude (1972) Quem é Deus, Petrópolis: Editora Vozes.
BLANK, J. Renold (1988) Quem, afinal, é Deus? 2ª Edição, São Paulo: Edições Paulinas.
COMASTRI, Ângelo (2000) Tu és Trindade, São Paulo: Edições Paulinas.
FERREIRA, Isabel Fontes Leal (1970) Revelação do Pai e do Espírito Santo, Edições Paulinas.
FORTE, Bruno (1987) A Trindade como História, 3ª Edição, São Paulo: Edições Paulinas.
QUEIRUGA, T. Andrés (1993) Creio em Deus Pai, São Paulo: Edições Paulinas.
SCHULTE, Raphael (1972) Preparação da Revelação da Trindade, in Mysterium Salutis, Vol. II/1, Petrópolis: Editora Vozes.